Um condomínio de 200 unidades em Belo Horizonte investiu R$ 85 mil em um sistema de CFTV com 48 câmeras. Seis meses depois, quando precisou das imagens de um furto no estacionamento, descobriu que o DVR havia parado de gravar 3 semanas antes — o HD estava cheio e ninguém monitorava. Das 48 câmeras, 11 estavam com imagem escura (IR queimado) e 4 completamente offline.
O investimento existia. A gestão, não.
Sistema de câmeras em condomínio só funciona se vier acompanhado de manutenção, monitoramento e um plano claro de quem faz o quê.
Tipos de câmera e quando usar cada uma
Câmeras analógicas (HD-TVI, HD-CVI, AHD)
- Resolução: 2 MP a 8 MP
- Transmissão por cabo coaxial
- Custo por câmera: R$ 150 a R$ 500
- Indicação: condomínios que já têm infraestrutura coaxial ou orçamento limitado
Câmeras IP
- Resolução: 2 MP a 12 MP
- Transmissão por cabo de rede (PoE) ou Wi-Fi
- Custo por câmera: R$ 300 a R$ 2.000
- Indicação: instalações novas, condomínios que querem acesso remoto e recursos inteligentes (detecção de movimento, reconhecimento facial)
Câmeras com IA embarcada
- Detecção de pessoas, veículos, objetos abandonados
- Alerta em tempo real por app
- Custo por câmera: R$ 800 a R$ 3.500
- Indicação: portarias remotas, áreas críticas (entrada de veículos, perímetro)
Recomendação prática: para a maioria dos condomínios, câmeras IP de 4 MP com PoE oferecem o melhor custo-benefício. Resolução suficiente para identificar rostos a até 15 metros, instalação limpa (um cabo por câmera resolve energia e dados) e compatibilidade com NVRs modernos.
Posicionamento estratégico
Câmera mal posicionada é dinheiro jogado fora. Os pontos obrigatórios:
Prioridade máxima:
- Entrada social e de serviço (com ângulo que capture rosto de quem entra)
- Portaria — visão do atendente e da área externa
- Entrada e saída de veículos (com câmera LPR para leitura de placa, se possível)
- Hall dos elevadores em todos os andares
Prioridade alta:
- Estacionamento — uma câmera a cada 15-20 vagas, com visão cruzada
- Perímetro externo — muros, grades, acessos secundários
- Áreas de lazer (piscina, churrasqueira, salão de festas)
- Casa de máquinas e áreas técnicas
Prioridade média:
- Corredores internos dos andares
- Área de lixo e descarte
- Playground (com atenção à LGPD — imagens de crianças exigem cuidado extra)
Erros de posicionamento
- Câmera contra a luz (sol, refletor) — imagem estourada e inútil
- Câmera muito alta — ângulo de cima pra baixo não captura rosto
- Câmera em local inacessível para manutenção — troca de equipamento vira obra
- Falta de câmera no ângulo reverso — o invasor entra por onde não tem cobertura
Armazenamento: quanto espaço você precisa
A conta depende de três variáveis: número de câmeras, resolução e quantos dias de gravação o condomínio quer manter.
Referência prática (gravação contínua 24h):
| Câmeras | Resolução | 15 dias | 30 dias |
|---|---|---|---|
| 16 | 2 MP | 4 TB | 8 TB |
| 16 | 4 MP | 8 TB | 16 TB |
| 32 | 4 MP | 16 TB | 32 TB |
| 48 | 4 MP | 24 TB | 48 TB |
Dica: gravação por detecção de movimento reduz o armazenamento em 50-70%, mas pode perder eventos se a sensibilidade não estiver bem calibrada. O ideal é gravar contínuo nas câmeras críticas (entradas, portaria) e por movimento nas demais.
NVR vs. servidor:
- NVR dedicado (Intelbras, Hikvision, Dahua) — mais simples, mais estável, menos flexível. Custo: R$ 2.000 a R$ 8.000
- Servidor com software de gerenciamento (Milestone, Blue Iris) — mais flexível, permite integração com outros sistemas, exige manutenção de TI. Custo: R$ 5.000 a R$ 20.000
LGPD: o que o condomínio precisa saber
A Lei Geral de Proteção de Dados se aplica a condomínios. Imagem é dado pessoal. Reconhecimento facial é dado sensível. Ignorar isso é risco jurídico real.
Obrigações práticas
1. Base legal: o condomínio pode usar câmeras com base no legítimo interesse (segurança patrimonial). Não precisa de consentimento individual, mas precisa informar.
2. Sinalização: placas indicando que o ambiente é monitorado por câmeras. Obrigatório em todas as entradas e áreas monitoradas.
3. Finalidade definida: as imagens só podem ser usadas para segurança. Síndico assistindo câmera para ver quem está usando a piscina fora do horário e postando no grupo de WhatsApp é desvio de finalidade — e pode gerar ação judicial.
4. Acesso restrito: definir quem pode acessar as imagens (síndico, zelador, empresa de segurança). O acesso deve ser registrado.
5. Prazo de armazenamento: manter as imagens pelo tempo necessário para a finalidade de segurança — 30 dias é o padrão mais aceito. Após esse prazo, as imagens devem ser descartadas automaticamente.
6. Reconhecimento facial: se o condomínio usa reconhecimento facial para controle de acesso, precisa de atenção redobrada. A ANPD já se manifestou sobre o tema e a tendência é de regulamentação mais restritiva. Recomendação: ter política escrita, aprovada em assembleia, com opt-out para quem não quiser usar.
7. Compartilhamento com autoridades: imagens podem ser compartilhadas com polícia mediante solicitação formal (ofício ou mandado). Entrega informal, sem registro, expõe o condomínio.
Custos de implantação e manutenção
Implantação completa (16 câmeras IP 4 MP + NVR + infraestrutura):
- R$ 15.000 a R$ 35.000
Implantação completa (32 câmeras + NVR + infraestrutura):
- R$ 30.000 a R$ 70.000
Manutenção preventiva mensal:
- R$ 500 a R$ 1.500 (limpeza de lentes, verificação de cabos, teste de gravação, atualização de firmware)
Manutenção corretiva (troca de câmera, HD, fonte):
- R$ 200 a R$ 2.000 por ocorrência
Vida útil média:
- Câmeras: 4 a 6 anos
- NVR: 5 a 7 anos
- HDs de vigilância: 2 a 3 anos (uso contínuo 24/7)
Provisionar a troca de HDs a cada 2-3 anos é essencial. HD de vigilância que falha silenciosamente é o problema número um de sistemas de CFTV em condomínio.
Monitoramento: quem assiste?
Câmera sem monitoramento é câmera decorativa. As opções:
1. Portaria presencial — o porteiro acompanha as imagens em monitor dedicado. Funciona se o porteiro for treinado e não estiver sobrecarregado com outras funções (o que raramente acontece).
2. Portaria remota/virtual — empresa terceirizada monitora as câmeras 24h e aciona o condomínio ou a polícia em caso de ocorrência. Custo: R$ 3.000 a R$ 8.000/mês.
3. Monitoramento por IA — câmeras com detecção inteligente enviam alertas automáticos para o celular do síndico ou da empresa de segurança. Reduz a dependência de monitoramento humano contínuo.
4. Sem monitoramento ativo — as imagens são apenas gravadas para consulta posterior. É o modelo mais comum e o menos eficaz para prevenção.
Erros comuns
- Comprar pelo menor preço — câmera de R$ 80 com sensor ruim produz imagem inútil à noite
- Não testar a gravação periodicamente — o sistema pode estar “ligado” sem gravar há semanas
- Esquecer o nobreak — queda de energia desliga o NVR e as câmeras. Um nobreak de 1500 VA (R$ 800 a R$ 1.500) mantém o sistema por 30-60 minutos
- Não trocar os HDs preventivamente — HD de vigilância tem vida útil limitada; esperar a falha é perder evidências
- Dar acesso irrestrito às imagens — quanto mais gente acessa, maior o risco de vazamento e de problema com LGPD
- Não documentar ocorrências — quando algo acontece, o registro com data, hora e câmera facilita a busca. Plataformas como o Residente ajudam a centralizar esses registros
Próximos passos
- Faça um levantamento das câmeras atuais — quantas estão funcionando, gravando e com imagem aceitável
- Verifique o estado dos HDs e a capacidade de armazenamento
- Revise o posicionamento — identifique pontos cegos críticos
- Implemente sinalização de LGPD em todas as áreas monitoradas
- Defina uma política de acesso às imagens e aprove em assembleia
- Contrate manutenção preventiva mensal ou, no mínimo, trimestral
- Teste a gravação toda semana — 5 minutos que evitam meses de dor de cabeça
Segurança em condomínio não se resolve com quantidade de câmeras. Resolve-se com câmeras certas, nos lugares certos, funcionando de verdade e com alguém cuidando do sistema. O resto é ilusão de segurança.