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Síndico de Primeira Viagem: Guia Prático Para os Primeiros 90 Dias

O que fazer nos primeiros 90 dias como síndico: checklist de transição, prioridades, erros comuns e como organizar a gestão do condomínio do zero.

Você foi eleito síndico. Talvez por vontade própria, talvez porque ninguém mais se candidatou. De qualquer forma, agora é sua responsabilidade: um orçamento que pode passar de R$ 100 mil por mês, dezenas (ou centenas) de moradores com expectativas diferentes, fornecedores, funcionários, manutenção, legislação e uma caixa de e-mail que vai lotar antes do fim da primeira semana.

Respira. Existe um caminho lógico para os primeiros 90 dias que separa síndicos organizados de síndicos que apagam incêndio até o fim do mandato.

Semana 1: Transição e documentação

Receba tudo do síndico anterior

Antes de qualquer ação, colete:

  • Documentos do condomínio: convenção, regimento interno, atas das últimas assembleias (mínimo 2 anos), CNPJ, alvarás
  • Financeiro: balancetes dos últimos 12 meses, extratos bancários, contratos vigentes, pasta de inadimplentes
  • Operacional: contratos de manutenção (elevadores, bombas, portaria, limpeza, jardinagem), apólice de seguro, laudos técnicos
  • Acesso: senhas do internet banking, sistema de gestão, e-mail do condomínio, câmeras, controle de acesso
  • Chaves: de todas as áreas técnicas, casa de máquinas, barrilete, quadro elétrico

Formalize a transição por escrito. Um termo de entrega assinado por ambas as partes protege você e o síndico anterior.

Abra uma conta de e-mail oficial

Se o condomínio não tem, crie: sindico@[nome-do-condominio].com ou use o e-mail do sistema de gestão. Não use seu e-mail pessoal para assuntos do condomínio.

Semanas 2-4: Diagnóstico

Vistoria completa do condomínio

Percorra todas as áreas com o zelador (se houver) e documente com fotos:

  • Estrutural: trincas, infiltrações, descascamento de pintura, ferragens expostas
  • Hidráulico: vazamentos visíveis, pressão de água, estado das bombas
  • Elétrico: quadros de distribuição, iluminação de emergência, geradores
  • Segurança: câmeras funcionando, controle de acesso operante, extintores dentro da validade, sinalização de emergência
  • Áreas comuns: estado de conservação de pisos, paredes, equipamentos de lazer
  • Telhado/cobertura: telhas quebradas, calhas entupidas, impermeabilização

Essa vistoria vira seu “raio-x” do condomínio. É a base para priorizar investimentos e justificar gastos em assembleia.

Auditoria financeira rápida

Você não precisa ser contador, mas precisa entender:

  • Saldo atual das contas do condomínio
  • Inadimplência: percentual e valor total. Acima de 10% é preocupante, acima de 20% é emergência.
  • Fundo de reserva: existe? Está aplicado? Qual o saldo?
  • Contratos vigentes: quais vencem nos próximos 6 meses? Algum com renovação automática?
  • Despesas fixas vs receita: o condomínio está no azul ou no vermelho?

Se algo parecer irregular, contrate uma auditoria profissional. Custa entre R$ 3.000 e R$ 15.000 dependendo do porte, mas pode evitar problemas de R$ 100 mil.

Conheça os contratos

Leia cada contrato vigente. Marque:

  • Data de vencimento
  • Cláusula de reajuste
  • Multa por rescisão
  • Escopo do serviço (o que está incluso e o que não está)

Monte uma planilha simples com todos os contratos, valores e vencimentos. Isso vai te salvar quando precisar renegociar ou trocar fornecedor.

Mês 2: Organização e comunicação

Defina canais de comunicação

Moradores precisam saber como falar com você — e você precisa de limites.

Estrutura recomendada:

  • App de gestão (Residente, por exemplo): canal oficial para ocorrências, comunicados e votações
  • E-mail do condomínio: para assuntos formais e documentação
  • Horário de atendimento: defina dias e horários para atendimento presencial ou por telefone. Síndico não é plantão 24h.
  • Grupo de WhatsApp: opcional e perigoso. Se existir, deixe claro que é informativo, não deliberativo. Decisões se tomam em assembleia, não no grupo.

Primeiro comunicado

Envie uma comunicação formal para todos os moradores:

  • Apresente-se
  • Informe os canais oficiais de comunicação
  • Compartilhe o resultado da vistoria (resumo, sem alarmismo)
  • Liste as 3-5 prioridades do seu mandato
  • Informe a data da próxima assembleia (se aplicável)

Conheça os funcionários

Se o condomínio tem equipe própria, converse individualmente com cada funcionário:

  • O que fazem no dia a dia
  • Principais dificuldades
  • O que funciona e o que não funciona
  • Sugestões

Funcionários conhecem o prédio melhor que qualquer morador. Ouvi-los é investimento, não perda de tempo.

Mês 3: Ação e planejamento

Resolva o urgente

Com base na vistoria e no diagnóstico financeiro, ataque primeiro o que:

  1. Oferece risco à segurança (extintores vencidos, elevadores com laudo pendente, infiltrações em área elétrica)
  2. Gera prejuízo financeiro (vazamentos, contratos desvantajosos, inadimplência crescente)
  3. Afeta o dia a dia dos moradores (portaria desorganizada, limpeza deficiente)

Monte o orçamento anual

Com 60-90 dias de gestão, você já tem dados suficientes para montar uma previsão orçamentária:

  • Receita mensal (taxa condominial × unidades adimplentes)
  • Despesas fixas (salários, contratos, concessionárias)
  • Despesas variáveis (manutenção corretiva, materiais)
  • Fundo de reserva (mínimo 5-10% da receita)
  • Investimentos planejados (pintura, troca de equipamentos, melhorias)

Apresente na próxima assembleia com clareza. Moradores que entendem para onde vai o dinheiro reclamam menos e pagam mais em dia.

Implante um sistema de gestão

Se o condomínio ainda usa planilha Excel, pasta física ou caderno do porteiro, é hora de profissionalizar. Um sistema de gestão condominial organiza:

  • Financeiro (boletos, prestação de contas, inadimplência)
  • Ocorrências (registros com foto e histórico)
  • Comunicação (comunicados, enquetes, atas)
  • Reservas (salão de festas, churrasqueira, espaços)
  • Documentos (contratos, atas, convenção, regimento)

O custo de um sistema como o Residente é uma fração do que se perde com desorganização.

Erros comuns de síndicos de primeira viagem

  1. Querer resolver tudo sozinho: delegue ao zelador, ao conselho, à administradora. Síndico coordena, não executa tudo.
  2. Não documentar: toda decisão, toda conversa importante, todo problema encontrado — por escrito. E-mail vale mais que ligação. Ata vale mais que conversa de corredor.
  3. Ceder à pressão de moradores barulhentos: a minoria que reclama alto não representa a maioria. Tome decisões baseadas em dados e na convenção, não em quem grita mais.
  4. Ignorar a inadimplência: cobrar é desconfortável, mas inadimplência descontrolada quebra o condomínio. Tenha um processo claro: notificação → cobrança administrativa → protesto/ação judicial.
  5. Não fazer assembleia: assembleia é obrigatória (no mínimo anual). É onde você presta contas, aprova orçamento e toma decisões coletivas. Fugir dela é acumular problemas.

Checklist dos primeiros 90 dias

  • Receber documentação do síndico anterior (com termo de entrega)
  • Obter todos os acessos (banco, sistema, e-mail, câmeras, chaves)
  • Fazer vistoria completa com fotos
  • Auditar situação financeira
  • Mapear todos os contratos vigentes
  • Definir canais de comunicação
  • Enviar primeiro comunicado aos moradores
  • Conversar com todos os funcionários
  • Resolver itens urgentes de segurança
  • Montar orçamento anual
  • Avaliar implantação de sistema de gestão
  • Agendar assembleia ordinária (se devida)

Conclusão

Os primeiros 90 dias definem o tom do mandato. Síndico que começa organizado — com documentação em mãos, diagnóstico feito e prioridades claras — ganha credibilidade rápido e evita a armadilha de virar bombeiro apagando incêndio. Comece pelo processo. Os resultados vêm.

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