· 7 min de leitura

Incêndio de Veículo Elétrico na Garagem do Condomínio: Como Prevenir e o Que Fazer

Após incêndio com veículo híbrido em garagem de condomínio no Piauí, veja como prevenir riscos, o que a legislação exige e qual o protocolo de emergência para síndicos.

Na madrugada de 17 de março de 2026, um incêndio na garagem do Condomínio Jardim Fiesole, em Teresina (PI), destruiu cinco veículos e duas motocicletas. O prejuízo passou de R$ 1 milhão. Entre os carros atingidos, um Land Rover Velar híbrido plug-in estava com o conector de recarga plugado. Ninguém ficou ferido — mas o susto serviu de alerta para todo o Brasil.

O caso levanta uma pergunta que muitos síndicos ainda não sabem responder: o condomínio está preparado para lidar com os riscos de veículos elétricos e híbridos nas garagens?

O risco é real — e está crescendo

O Brasil emplacou mais de 180 mil veículos elétricos e híbridos plug-in em 2025, crescimento de 62% sobre o ano anterior. A tendência é clara: cada vez mais moradores vão estacionar e carregar esses veículos em garagens de condomínios.

O problema é que baterias de lítio — presentes em todos os EVs e híbridos plug-in — podem sofrer um fenômeno chamado fuga térmica (thermal runaway). Quando isso acontece, a bateria entra em um ciclo de superaquecimento que se autoalimenta, gerando chamas intensas, gases tóxicos (fluoreto de hidrogênio, monóxido de carbono) e temperaturas que ultrapassam 1.000°C.

Por que é diferente de um incêndio comum?

CaracterísticaVeículo a combustãoVeículo elétrico/híbrido
Tempo de combustãoControlado em minutosPode durar horas (bateria reignita)
Gases tóxicosSim (CO, NOx)Mais intensos (HF, CO, HCN)
Água necessária~2.000 litros10.000 a 80.000 litros
ReigniçãoRaroPode ocorrer dias depois
Extintor convencionalEficazIneficaz contra fuga térmica

Esse é o ponto que pega muitos condomínios desprevenidos. O plano de emergência que funciona para incêndios tradicionais pode não ser suficiente.

O que diz a legislação

Diretriz Nacional ABVE/ABNT (2025)

A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) publicou em agosto de 2025 a Diretriz Nacional sobre Ocupações Destinadas a Garagens com Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE). O documento estabelece:

  • Infraestrutura elétrica adequada: cabeamento dimensionado, proteção contra sobrecarga e curto-circuito
  • Ventilação mínima: garagens com recarga devem ter ventilação que impeça acúmulo de gases
  • Distanciamento: recomendação de manter pontos de recarga afastados de saídas de emergência e áreas de maior concentração de veículos
  • Sinalização: identificação clara de vagas com recarga e instruções de emergência

ABNT NBR 17019

A norma técnica que regulamenta a instalação de carregadores em condomínios também traz exigências de segurança: proteção diferencial residual, aterramento adequado e instalação por profissional habilitado.

Responsabilidade do síndico

O síndico responde civil e criminalmente por omissão na manutenção dos sistemas de segurança do condomínio. Se a garagem permite recarga de veículos elétricos e não há protocolos de segurança adequados, a responsabilidade pode recair diretamente sobre o gestor.

7 medidas práticas para o síndico

1. Atualize o plano de emergência

O plano de evacuação do condomínio precisa incluir cenários específicos para incêndios com baterias de lítio. Pontos obrigatórios:

  • Rota de evacuação que considere gases tóxicos (fuga para cima, não pelo subsolo)
  • Instrução para não tentar apagar fogo em bateria com extintor convencional
  • Acionamento imediato do Corpo de Bombeiros informando que há veículo elétrico envolvido

2. Exija instalação profissional dos carregadores

Carregador improvisado, extensão elétrica, tomada comum: tudo isso é receita para desastre. Exija laudo técnico de engenheiro ou eletricista habilitado para toda instalação de ponto de recarga. A norma ABNT NBR 17019 não é opcional — é requisito mínimo.

3. Instale detector de fumaça na garagem

Muitos condomínios têm detectores apenas nos andares. A garagem — especialmente se permite recarga de EVs — precisa de detector de fumaça e, idealmente, detector de calor interligado ao sistema de alarme central.

4. Revise a ventilação

Garagens subterrâneas com ventilação insuficiente acumulam gases tóxicos mais rápido em caso de incêndio com bateria. Verifique se o sistema de exaustão está dimensionado e funcionando. O ideal é ter sensores de CO (monóxido de carbono) com acionamento automático.

5. Mantenha o AVCB em dia

O Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros é obrigatório. A segurança contra incêndio não é negociável. Com a chegada de veículos elétricos, vale consultar o Corpo de Bombeiros local sobre exigências adicionais para a renovação.

6. Inclua regras no regimento interno

O regimento interno deve ser atualizado para cobrir:

  • Obrigatoriedade de laudo técnico para instalação de carregador
  • Proibição de recarga com equipamentos não certificados
  • Procedimento em caso de acidente (quem acionar, como evacuar)
  • Responsabilidade do morador por danos causados por seu veículo

7. Contrate seguro adequado

Verifique com a seguradora se a apólice do condomínio cobre incêndios originados em veículos elétricos. Muitas apólices antigas não preveem esse risco. Atualize a cobertura — o seguro condominial é a última linha de defesa.

O que fazer DURANTE um incêndio com veículo elétrico

Se o pior acontecer, o protocolo é diferente:

  1. Evacue imediatamente. Não tente combater o fogo. Gases de bateria de lítio são letais.
  2. Acione os Bombeiros. Informe que há veículo elétrico/híbrido envolvido — isso muda o tipo de resposta.
  3. Não use elevador. Suba pelas escadas, feche portas corta-fogo atrás de você.
  4. Desligue a energia da garagem (se possível, pelo quadro geral, sem se expor ao fogo).
  5. Mantenha distância mesmo após o fogo parecer controlado. Baterias de lítio reignitam.

Não é alarmismo — é gestão

Veículos elétricos são o futuro. Ninguém está sugerindo proibi-los. Mas a infraestrutura dos condomínios precisa acompanhar a mudança. E isso depende de ação do síndico — agora, não depois do primeiro incidente.

O caso de Teresina terminou sem vítimas. O próximo pode não ter a mesma sorte.


Quer centralizar a gestão de segurança, manutenção e comunicação do seu condomínio em um só lugar? O Residente Online ajuda síndicos a manter tudo organizado — de ordens de serviço a comunicados de emergência — sem depender de planilhas ou grupos de WhatsApp.

Quer ver na prática?

Teste o Residente Online grátis por 30 dias. Sem cartão, sem compromisso.

Começar Teste Gratuito →