Na madrugada de 17 de março de 2026, um incêndio na garagem do Condomínio Jardim Fiesole, em Teresina (PI), destruiu cinco veículos e duas motocicletas. O prejuízo passou de R$ 1 milhão. Entre os carros atingidos, um Land Rover Velar híbrido plug-in estava com o conector de recarga plugado. Ninguém ficou ferido — mas o susto serviu de alerta para todo o Brasil.
O caso levanta uma pergunta que muitos síndicos ainda não sabem responder: o condomínio está preparado para lidar com os riscos de veículos elétricos e híbridos nas garagens?
O risco é real — e está crescendo
O Brasil emplacou mais de 180 mil veículos elétricos e híbridos plug-in em 2025, crescimento de 62% sobre o ano anterior. A tendência é clara: cada vez mais moradores vão estacionar e carregar esses veículos em garagens de condomínios.
O problema é que baterias de lítio — presentes em todos os EVs e híbridos plug-in — podem sofrer um fenômeno chamado fuga térmica (thermal runaway). Quando isso acontece, a bateria entra em um ciclo de superaquecimento que se autoalimenta, gerando chamas intensas, gases tóxicos (fluoreto de hidrogênio, monóxido de carbono) e temperaturas que ultrapassam 1.000°C.
Por que é diferente de um incêndio comum?
| Característica | Veículo a combustão | Veículo elétrico/híbrido |
|---|---|---|
| Tempo de combustão | Controlado em minutos | Pode durar horas (bateria reignita) |
| Gases tóxicos | Sim (CO, NOx) | Mais intensos (HF, CO, HCN) |
| Água necessária | ~2.000 litros | 10.000 a 80.000 litros |
| Reignição | Raro | Pode ocorrer dias depois |
| Extintor convencional | Eficaz | Ineficaz contra fuga térmica |
Esse é o ponto que pega muitos condomínios desprevenidos. O plano de emergência que funciona para incêndios tradicionais pode não ser suficiente.
O que diz a legislação
Diretriz Nacional ABVE/ABNT (2025)
A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) publicou em agosto de 2025 a Diretriz Nacional sobre Ocupações Destinadas a Garagens com Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE). O documento estabelece:
- Infraestrutura elétrica adequada: cabeamento dimensionado, proteção contra sobrecarga e curto-circuito
- Ventilação mínima: garagens com recarga devem ter ventilação que impeça acúmulo de gases
- Distanciamento: recomendação de manter pontos de recarga afastados de saídas de emergência e áreas de maior concentração de veículos
- Sinalização: identificação clara de vagas com recarga e instruções de emergência
ABNT NBR 17019
A norma técnica que regulamenta a instalação de carregadores em condomínios também traz exigências de segurança: proteção diferencial residual, aterramento adequado e instalação por profissional habilitado.
Responsabilidade do síndico
O síndico responde civil e criminalmente por omissão na manutenção dos sistemas de segurança do condomínio. Se a garagem permite recarga de veículos elétricos e não há protocolos de segurança adequados, a responsabilidade pode recair diretamente sobre o gestor.
7 medidas práticas para o síndico
1. Atualize o plano de emergência
O plano de evacuação do condomínio precisa incluir cenários específicos para incêndios com baterias de lítio. Pontos obrigatórios:
- Rota de evacuação que considere gases tóxicos (fuga para cima, não pelo subsolo)
- Instrução para não tentar apagar fogo em bateria com extintor convencional
- Acionamento imediato do Corpo de Bombeiros informando que há veículo elétrico envolvido
2. Exija instalação profissional dos carregadores
Carregador improvisado, extensão elétrica, tomada comum: tudo isso é receita para desastre. Exija laudo técnico de engenheiro ou eletricista habilitado para toda instalação de ponto de recarga. A norma ABNT NBR 17019 não é opcional — é requisito mínimo.
3. Instale detector de fumaça na garagem
Muitos condomínios têm detectores apenas nos andares. A garagem — especialmente se permite recarga de EVs — precisa de detector de fumaça e, idealmente, detector de calor interligado ao sistema de alarme central.
4. Revise a ventilação
Garagens subterrâneas com ventilação insuficiente acumulam gases tóxicos mais rápido em caso de incêndio com bateria. Verifique se o sistema de exaustão está dimensionado e funcionando. O ideal é ter sensores de CO (monóxido de carbono) com acionamento automático.
5. Mantenha o AVCB em dia
O Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros é obrigatório. A segurança contra incêndio não é negociável. Com a chegada de veículos elétricos, vale consultar o Corpo de Bombeiros local sobre exigências adicionais para a renovação.
6. Inclua regras no regimento interno
O regimento interno deve ser atualizado para cobrir:
- Obrigatoriedade de laudo técnico para instalação de carregador
- Proibição de recarga com equipamentos não certificados
- Procedimento em caso de acidente (quem acionar, como evacuar)
- Responsabilidade do morador por danos causados por seu veículo
7. Contrate seguro adequado
Verifique com a seguradora se a apólice do condomínio cobre incêndios originados em veículos elétricos. Muitas apólices antigas não preveem esse risco. Atualize a cobertura — o seguro condominial é a última linha de defesa.
O que fazer DURANTE um incêndio com veículo elétrico
Se o pior acontecer, o protocolo é diferente:
- Evacue imediatamente. Não tente combater o fogo. Gases de bateria de lítio são letais.
- Acione os Bombeiros. Informe que há veículo elétrico/híbrido envolvido — isso muda o tipo de resposta.
- Não use elevador. Suba pelas escadas, feche portas corta-fogo atrás de você.
- Desligue a energia da garagem (se possível, pelo quadro geral, sem se expor ao fogo).
- Mantenha distância mesmo após o fogo parecer controlado. Baterias de lítio reignitam.
Não é alarmismo — é gestão
Veículos elétricos são o futuro. Ninguém está sugerindo proibi-los. Mas a infraestrutura dos condomínios precisa acompanhar a mudança. E isso depende de ação do síndico — agora, não depois do primeiro incidente.
O caso de Teresina terminou sem vítimas. O próximo pode não ter a mesma sorte.
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