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Impermeabilização e Infiltrações no Condomínio: Responsabilidades, Prevenção e Custos

Guia completo sobre impermeabilização e infiltrações em condomínios: quem paga, como prevenir, custos médios e responsabilidades do síndico e dos moradores.

O apartamento da cobertura de um condomínio em Recife começou a apresentar manchas de umidade no teto em março de 2024. O morador avisou o síndico. O síndico disse que era problema da unidade. O morador discordou. Três meses de discussão depois, a infiltração atingiu o apartamento de baixo. O conserto que custaria R$ 8.000 virou uma obra de R$ 47.000 — fora o processo judicial.

Infiltração é o problema de manutenção mais caro e mais comum em condomínios brasileiros. E a pergunta que todo síndico ouve é sempre a mesma: “Quem paga?”

Entendendo de onde vem a infiltração

Antes de discutir responsabilidade, é preciso identificar a origem. E isso exige um profissional — não achismo de porteiro, morador ou síndico.

Principais origens

Laje de cobertura. A impermeabilização da cobertura tem vida útil de 10 a 15 anos. Depois disso, trincas e desgaste permitem a entrada de água. Problema do condomínio.

Fachada. Trincas em juntas de dilatação, rejunte deteriorado, fissuras no revestimento. A água da chuva penetra e escorre por dentro da parede até aparecer dentro de algum apartamento. Problema do condomínio.

Tubulação hidráulica. Canos de água fria, água quente ou esgoto que passam dentro de paredes e lajes. Se o cano é da coluna (prumada), é do condomínio. Se é ramal interno do apartamento, é do morador.

Box do banheiro e varanda. Falta de impermeabilização ou impermeabilização mal feita na reforma do apartamento. Água escorre para o vizinho de baixo. Problema do morador que reformou.

Jardim sobre laje. Condomínios com área verde sobre garagem subterrânea. A impermeabilização sob o jardim se deteriora com raízes e peso do solo.

Quem paga: a regra geral

O Código Civil (art. 1.331 a 1.358) e a jurisprudência são claros:

Área comum = condomínio paga. Cobertura, fachada, colunas de água/esgoto, lajes estruturais, jardins sobre garagem — tudo isso é área comum. A manutenção e impermeabilização são responsabilidade do condomínio, rateadas entre todos os condôminos.

Área privativa = morador paga. Ramais hidráulicos internos, box do banheiro, varanda com uso exclusivo (quando a impermeabilização foi danificada por reforma do morador), piso do apartamento.

Casos que geram dúvida

Varanda da cobertura com uso exclusivo. Se a impermeabilização original nunca foi mexida, é do condomínio (faz parte da estrutura). Se o morador reformou e danificou a impermeabilização, é dele.

Tubo que passa dentro do apartamento mas é coluna. É do condomínio. O fato de o tubo estar dentro da unidade não muda a natureza — coluna é área comum.

Infiltração que veio de cima para baixo. O morador do andar de baixo não tem culpa. Mas quem paga depende da origem: se é problema de área comum (laje entre andares, por exemplo), o condomínio assume. Se é problema do apartamento de cima (box sem impermeabilização), o vizinho de cima paga.

Quanto custa impermeabilizar

Os valores variam muito conforme a região, o tamanho da área e o sistema escolhido. Referências de mercado para 2025/2026:

Impermeabilização de cobertura (laje plana)

  • Manta asfáltica: R$ 80 a R$ 150/m²
  • Membrana de poliuretano: R$ 100 a R$ 200/m²
  • Manta líquida (acrílica): R$ 40 a R$ 80/m² (menor durabilidade)

Para uma cobertura de 300 m², o custo fica entre R$ 24.000 e R$ 60.000, incluindo mão de obra, preparação da superfície e proteção mecânica.

Impermeabilização de fachada

Tratamento de fissuras e aplicação de hidrofugante: R$ 30 a R$ 70/m². Para um prédio de 12 andares com 2.000 m² de fachada, o custo pode chegar a R$ 140.000.

Se for necessário trabalho em altura com balancim ou rapel, a mão de obra sobe significativamente.

Impermeabilização de jardineira sobre garagem

R$ 120 a R$ 250/m², considerando remoção da terra, impermeabilização, proteção anti-raiz e recomposição do jardim.

Reparos pontuais

Conserto de infiltração localizada em banheiro ou varanda: R$ 2.000 a R$ 8.000, dependendo da extensão e da necessidade de quebrar piso.

Como identificar o problema cedo

Infiltração pega velocidade. Uma mancha pequena hoje é mofo generalizado em três meses. Fique atento a:

  • Manchas escuras em teto e paredes (especialmente após chuva)
  • Pintura descascando ou estufando
  • Cheiro de mofo persistente
  • Eflorescência (pó branco em paredes de concreto)
  • Goteiras no teto da garagem
  • Umidade no rodapé (infiltração ascendente)

Inspeção técnica periódica

Todo condomínio deveria contratar inspeção técnica a cada 2-3 anos. Um engenheiro avalia cobertura, fachada e áreas críticas e produz laudo com recomendações.

Custo da inspeção: R$ 2.000 a R$ 6.000. Parece caro até você comparar com o custo de uma infiltração que passou dois anos sem ser tratada.

A ABNT NBR 5674 (Manutenção de edificações) recomenda inspeções periódicas e define prazos para cada sistema do edifício.

Prevenção: o que o síndico pode fazer

1. Siga o plano de manutenção preventiva

A impermeabilização da cobertura tem prazo de validade. Não espere vazar para agir. Inclua no planejamento financeiro a re-impermeabilização a cada 10-12 anos.

2. Limpe ralos e calhas regularmente

Ralos entupidos na cobertura criam poças que forçam a impermeabilização. Limpeza mensal durante o verão e quinzenal na temporada de chuvas.

3. Controle reformas em unidades

O morador que reforma o banheiro deve seguir normas técnicas de impermeabilização (ABNT NBR 9575). Exija que o prestador de serviço apresente ART ou RRT e comprove a impermeabilização do box.

A convenção pode — e deve — exigir autorização prévia para reformas que envolvam área molhada.

4. Monitore a fachada

Trincas em fachada são comuns após movimentações estruturais (especialmente em prédios novos nos primeiros 5 anos). Faça vistoria visual anual e registre tudo com fotos.

5. Trate problemas pequenos imediatamente

O princípio da infiltração: resolver cedo é barato. Esperar é caro. Sempre.

O laudo técnico: quando e por que fazer

O laudo técnico de infiltração identifica com precisão a origem do problema e recomenda a solução. Sem laudo, você está adivinhando — e adivinhação em impermeabilização custa caro.

Quando fazer:

  • Sempre que surgir infiltração em área comum
  • Quando houver disputa sobre responsabilidade
  • Antes de contratar serviço de impermeabilização (para definir o escopo correto)
  • Quando o condomínio completar 10 anos (laudo preventivo)

Quem faz: Engenheiro civil com experiência em patologias construtivas. Peça o CREA ativo e referências de trabalhos anteriores.

Custo: R$ 1.500 a R$ 5.000 para laudo de infiltração pontual. Laudo completo de cobertura e fachada: R$ 4.000 a R$ 12.000.

Como organizar a obra de impermeabilização

Orçamentos

Peça no mínimo 3 orçamentos de empresas especializadas. Exija:

  • ART (Anotação de Responsabilidade Técnica)
  • Memorial descritivo do serviço
  • Garantia por escrito (mínimo 5 anos)
  • Cronograma de execução
  • Referências de obras anteriores

Aprovação em assembleia

Obras de impermeabilização em áreas comuns normalmente são extraordinárias e exigem aprovação em assembleia. Exceção: emergências que não podem esperar (infiltração ativa causando dano estrutural).

Para aprovar, apresente o laudo técnico, os 3 orçamentos e o cronograma. Moradores aprovam mais facilmente quando entendem o problema e veem que o síndico fez o dever de casa.

Acompanhamento

Contrate um engenheiro fiscal independente para acompanhar a execução, especialmente em obras acima de R$ 50.000. O custo de fiscalização (5% a 8% do valor da obra) se paga na qualidade do resultado.

Uma plataforma de gestão como o Residente ajuda a documentar todo o processo — do primeiro registro de infiltração até a conclusão da obra — com fotos, protocolos e acompanhamento de prazos.

Garantia pós-obra

Faça vistoria de acompanhamento aos 6 meses e aos 12 meses após a conclusão. Registre qualquer problema e acione a garantia antes que expire.

Seguro condominial e infiltrações

O seguro obrigatório do condomínio (exigido pelo art. 1.346 do Código Civil) geralmente cobre danos causados por infiltração — mas há letras miúdas.

O que costuma estar coberto:

  • Danos a áreas comuns causados por eventos súbitos (ruptura de tubulação)
  • Danos a unidades vizinhas causados por problema em área comum

O que geralmente NÃO está coberto:

  • Desgaste natural da impermeabilização (falta de manutenção)
  • Infiltração por vício construtivo após o período de garantia
  • Danos causados por reforma do morador

Verifique a apólice do condomínio e, se necessário, contrate cobertura adicional para danos por água.

Checklist do síndico para infiltrações

  • Inspecione a cobertura e calhas a cada 6 meses
  • Registre qualquer sinal de infiltração com data e fotos
  • Contrate laudo técnico antes de qualquer reparo significativo
  • Defina no regimento as regras para reformas em áreas molhadas
  • Inclua re-impermeabilização no planejamento financeiro de longo prazo
  • Mantenha o seguro condominial atualizado com cobertura para danos por água
  • Documente todas as manutenções realizadas (data, empresa, garantia)

Para não esquecer

Infiltração não é questão de “se” — é questão de “quando”. Todo prédio vai ter. A diferença entre um condomínio bem administrado e um que vive de obra emergencial é simples: prevenção, documentação e ação rápida. Trate infiltração como urgência. Porque é.


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