Um casal sem filhos no 8º andar pagava a mesma conta de água que a família de cinco pessoas no 3º. Não por escolha — por rateio. O condomínio de 80 unidades em Porto Alegre tinha um único hidrômetro e dividia a conta igualmente. Resultado: o casal pagava R$ 180/mês de água. Após a individualização dos hidrômetros, a conta deles caiu para R$ 62. A da família do 3º andar subiu para R$ 210 — mas pelo menos agora pagavam pelo que consumiam.
No consolidado, o condomínio reduziu o consumo total de água em 31% nos 12 meses seguintes à individualização. Ninguém precisou tomar banho mais curto por obrigação. As pessoas simplesmente passaram a prestar atenção quando a conta era delas.
Como funciona o rateio tradicional (e por que é injusto)
Na maioria dos condomínios brasileiros, a água ainda é cobrada de uma de duas formas:
1. Rateio igualitário — a conta total é dividida pelo número de unidades. Simples e profundamente injusto. Quem economiza subsidia quem desperdiça.
2. Rateio por fração ideal — a conta é dividida proporcionalmente à fração ideal de cada unidade. Menos injusto, mas ainda não reflete o consumo real. Um apartamento de cobertura vazio paga mais que um apartamento menor com 4 moradores.
Os dois modelos criam o mesmo problema: nenhum morador tem incentivo para economizar, porque a economia individual se dilui no rateio coletivo. É o clássico “tragédia dos comuns” aplicada ao boleto do condomínio.
Individualização de hidrômetros: o que é e como funciona
Individualizar significa instalar um medidor de água (hidrômetro) para cada unidade autônoma. Cada morador passa a pagar pelo que consome. O condomínio continua com o hidrômetro geral (que mede o consumo total do prédio), e a diferença entre o consumo total e a soma dos individuais é o consumo das áreas comuns — rateado entre todos.
Tipos de sistema
1. Hidrômetros convencionais (leitura manual)
- Medidores individuais instalados em prumadas ou shafts
- Leitura mensal feita pelo zelador ou empresa terceirizada
- Custo mais baixo de implantação
- Desvantagem: leitura manual dá trabalho e pode ter erro humano
2. Hidrômetros com telemetria (leitura remota)
- Medidores com transmissor de dados (rádio ou pulso)
- Software coleta a leitura automaticamente
- Permite acompanhamento em tempo real e detecção de vazamentos
- Custo maior de implantação, mas operação mais eficiente
3. Sistemas de medição por torre (individualização parcial)
- Usado em prédios onde a tubulação não permite medição individual por unidade
- Mede por prumada (coluna de água) e distribui proporcionalmente
- Menos preciso, mas viável quando a individualização completa é inviável tecnicamente
Quanto custa individualizar
O custo varia muito conforme a idade e o tipo de construção do prédio:
Prédios novos (tubulação já preparada):
- R$ 800 a R$ 1.500 por unidade (só instalação do hidrômetro e conexão)
- Condomínio de 80 unidades: R$ 64 mil a R$ 120 mil
Prédios antigos (necessidade de adequação hidráulica):
- R$ 2.000 a R$ 5.000 por unidade (inclui reforma de prumadas, instalação de shafts, quebra e reparo de paredes)
- Condomínio de 80 unidades: R$ 160 mil a R$ 400 mil
Sistema com telemetria (adicional):
- R$ 300 a R$ 800 por unidade sobre o custo do hidrômetro convencional
- Software de gestão: R$ 200 a R$ 800/mês para o condomínio
Payback médio:
- Prédios novos: 2 a 3 anos
- Prédios antigos: 4 a 7 anos
- Considerando a economia média de 25-35% no consumo total de água
Legislação
A individualização de hidrômetros é obrigatória para edificações novas em diversos estados e municípios:
- São Paulo — Lei Estadual 17.506/2021: obrigatória em novas edificações multifamiliares
- Rio de Janeiro — Lei Estadual 7.985/2022: obrigatória em novas edificações e incentivada em existentes
- Minas Gerais — Lei Estadual 23.647/2020: obrigatória em novas edificações
- Distrito Federal — Lei 6.063/2017: obrigatória em novas edificações
Para prédios existentes, a individualização é facultativa na maioria dos estados, mas a tendência legislativa é clara: em breve será obrigatória em todo o país.
Aprovação em assembleia
Em prédios existentes, a individualização precisa de aprovação em assembleia:
- Se não envolve mudança na convenção: maioria simples
- Se a convenção define o rateio de água: 2/3 dos condôminos para alteração
Economia real: o que os dados mostram
Estudos consistentes no Brasil e no exterior mostram que a individualização reduz o consumo entre 20% e 40%:
- Sabesp (2023): condomínios que individualizaram reduziram o consumo médio em 25% no primeiro ano
- CAESB (Brasília): redução média de 32% em edifícios residenciais
- Estudo da USP (2022): redução de 28% no consumo e de 22% no valor da conta (considerando que a tarifa de água é progressiva — quanto menos consome, menor o preço por m³)
A economia é dupla: menos consumo total e enquadramento em faixas tarifárias mais baratas.
Como fazer o rateio após individualizar
Após a individualização, a conta de água do condomínio se divide em duas partes:
1. Consumo individual — cada unidade paga pelo que o hidrômetro registrou, convertido em reais pela tabela tarifária da concessionária.
2. Consumo de áreas comuns — a diferença entre o hidrômetro geral e a soma dos individuais. Inclui: irrigação de jardins, limpeza de áreas comuns, piscina, torneiras de uso coletivo. Esse valor é rateado entre todas as unidades (por fração ideal ou igualitariamente, conforme aprovado em assembleia).
Atenção ao “consumo fantasma”: se a diferença entre o hidrômetro geral e a soma dos individuais for superior a 15-20%, há problema. Pode ser vazamento na rede interna, hidrômetros descalibrados ou fraude. Investigar é obrigação do síndico.
Detecção de vazamentos
A individualização facilita — e muito — a detecção de vazamentos:
- Consumo individual acima da média sem explicação → possível vazamento na unidade
- Consumo de áreas comuns disparando → vazamento na rede do condomínio
- Sistemas com telemetria identificam consumo contínuo de madrugada (quando ninguém deveria estar usando água) — sinal clássico de vazamento
Um vazamento de um vaso sanitário pode desperdiçar 6.000 litros por dia. Com hidrômetro individual e telemetria, o morador descobre no dia seguinte. Sem individualização, o desperdício se dilui no rateio por meses.
Erros comuns
- Individualizar sem consertar a rede — se a tubulação do prédio está velha e cheia de vazamentos, a diferença entre o hidrômetro geral e os individuais será enorme. Primeiro conserte, depois individualize
- Não calibrar os hidrômetros — medidores novos são precisos, mas após 5-7 anos podem subregistrar até 15%. Calibração periódica é essencial
- Esquecer o consumo das áreas comuns — se o rateio das áreas comuns não for transparente, os moradores vão questionar. Apresente o demonstrativo todo mês
- Não comunicar bem — moradores que não entendem o sistema reclamam mais. Faça uma apresentação antes da implantação explicando como vai funcionar
- Achar que individualização substitui gestão — o hidrômetro mede. Quem age é o síndico. Acompanhar os relatórios, identificar anomalias e cobrar correções é trabalho contínuo. Plataformas como o Residente ajudam a centralizar esses dados e gerar alertas automáticos
Outras medidas de economia de água
Individualização é o maior passo, mas não o único:
- Arejadores em torneiras — reduzem o fluxo em 50% sem afetar a percepção. Custo: R$ 5 a R$ 15 por ponto
- Válvulas de descarga com duplo acionamento — 3 litros para líquidos, 6 litros para sólidos. Economia de 30-40% no vaso sanitário
- Reuso de água de chuva — para irrigação de jardins e lavagem de áreas comuns. Investimento de R$ 15 mil a R$ 40 mil, payback de 3-5 anos
- Irrigação automatizada com timer — evita o “zelador que esqueceu a mangueira ligada”
- Monitoramento do hidrômetro geral — leitura semanal para detectar variações anormais
Próximos passos
- Levante o consumo mensal de água do condomínio nos últimos 12 meses — identifique tendências e picos
- Consulte um engenheiro hidráulico para avaliar a viabilidade técnica da individualização no seu prédio
- Peça pelo menos 3 orçamentos de empresas especializadas
- Apresente o projeto em assembleia com dados de economia e payback
- Após aprovação, defina o modelo de rateio das áreas comuns e comunique aos moradores
- Implante e acompanhe — os primeiros 3 meses são críticos para ajustes e calibrações
Água é o segundo maior custo variável de um condomínio, atrás apenas da folha de pagamento. Tratar esse recurso com dados, medição individual e gestão ativa não é apenas justo — é financeiramente inteligente.