Um condomínio de 120 unidades em Goiânia instalou 180 painéis solares na cobertura do edifício em março de 2024. Investimento: R$ 380 mil. Economia mensal na conta de energia das áreas comuns: R$ 8.200. Payback projetado: 3 anos e 10 meses. Em 25 anos de vida útil dos painéis, a economia acumulada ultrapassa R$ 2 milhões.
Esses números não são exceção. O Brasil tem uma das maiores incidências solares do mundo, e o custo dos painéis caiu 85% na última década. Para condomínios — que consomem energia pesada em elevadores, bombas, iluminação e áreas comuns — a energia solar deixou de ser “futuro” e virou conta que fecha hoje.
Modelos de energia solar para condomínios
1. Sistema para áreas comuns
O modelo mais simples e mais adotado. Os painéis geram energia para suprir o consumo das áreas comuns: iluminação de halls, garagem, áreas de lazer, elevadores, bombas d’água, portaria.
Vantagem: Decisão envolve apenas o condomínio (assembleia). Não precisa mexer na medição individual dos apartamentos.
Dimensionamento típico: Um condomínio médio (60-100 unidades) consome entre 3.000 e 8.000 kWh/mês nas áreas comuns. Um sistema de 30 a 80 kW de potência atende essa demanda.
2. Sistema individual por unidade
Cada morador instala seus próprios painéis (geralmente na cobertura ou fachada, quando permitido). A energia gerada abate a conta individual via compensação de créditos.
Desafio: Espaço limitado. Em um prédio de 15 andares com 60 apartamentos, a cobertura não comporta painéis para todos. Funciona melhor em condomínios horizontais (casas).
3. Geração compartilhada (autoconsumo remoto)
O condomínio participa de uma usina solar instalada em outro local (fazenda solar). A energia gerada é convertida em créditos que abatem as contas de energia do condomínio e/ou dos moradores.
Vantagem: Não precisa de espaço no prédio. Ideal para condomínios urbanos verticais com pouca área de cobertura.
Marco legal: A Lei 14.300/2022 regulamentou esse modelo, criando regras claras para geração distribuída e compartilhada.
4. Modelo de assinatura (sem investimento)
Empresas instalam os painéis no condomínio ou oferecem créditos de usina remota. O condomínio paga uma mensalidade menor que a conta de luz atual. Sem investimento inicial.
Vantagem: Zero de capex. Economia imediata (10-20% sobre a conta).
Desvantagem: A economia é menor do que no modelo próprio. E o contrato costuma ter prazo longo (5-15 anos).
Quanto custa instalar
Sistema para áreas comuns (modelo próprio)
| Potência | Painéis | Custo estimado | Geração mensal |
|---|---|---|---|
| 10 kWp | 18-20 | R$ 45.000-65.000 | 1.200-1.500 kWh |
| 30 kWp | 55-60 | R$ 120.000-170.000 | 3.600-4.500 kWh |
| 50 kWp | 90-100 | R$ 190.000-270.000 | 6.000-7.500 kWh |
| 80 kWp | 145-160 | R$ 290.000-400.000 | 9.600-12.000 kWh |
Valores de referência para 2025/2026. Variam por região, fabricante e instalador.
O que está incluso: Painéis fotovoltaicos, inversor(es), estrutura de fixação, cabeamento, instalação, projeto elétrico e homologação junto à distribuidora.
Custo por unidade
Para um condomínio de 80 apartamentos que investe R$ 300 mil: R$ 3.750 por unidade (ou R$ 312 em 12 parcelas). Considerando economia mensal de R$ 100 por unidade na taxa condominial, o morador recupera o investimento em menos de 4 anos.
Payback e retorno financeiro
Cálculo simplificado
- Consumo mensal das áreas comuns: 5.000 kWh
- Tarifa média (com impostos): R$ 1,10/kWh
- Custo mensal: R$ 5.500
- Sistema de 50 kWp: R$ 230.000
- Geração mensal estimada: 6.500 kWh (excedente vira crédito)
- Economia mensal: R$ 5.200 (considerando taxa mínima obrigatória)
- Payback: 230.000 ÷ 5.200 = 44 meses (3 anos e 8 meses)
Vida útil e degradação
Painéis modernos têm garantia de 25 anos com degradação de 0,5-0,7% ao ano. Após 25 anos, ainda geram 80-85% da capacidade original.
Inversores duram 10-15 anos. Inclua a troca do inversor no cálculo de longo prazo (custo: 15-25% do investimento inicial).
Valorização do imóvel
Imóveis com energia solar são vendidos por 3-6% a mais, segundo pesquisa do Laboratório Nacional de Energia Renovável dos EUA (NREL). Para condomínios, o argumento é a taxa condominial mais baixa — fator decisivo na hora da compra.
Legislação e tributação
Lei 14.300/2022 (Marco Legal da Geração Distribuída)
Principais pontos para condomínios:
- Compensação de créditos: A energia excedente gerada é injetada na rede e vira crédito para abater em faturas futuras (validade de 60 meses).
- Fio B: Desde janeiro de 2023, sistemas novos pagam gradualmente pela tarifa de uso da rede (TUSD fio B). A transição é escalonada até 2029, quando o encargo será integral.
- Geração compartilhada: Regulamentada. O condomínio pode participar de cooperativas ou consórcios de geração.
- Isenção de ICMS: Mantida em muitos estados para geração distribuída até determinada potência.
Impacto do “fio B” no retorno
Com a cobrança gradual do fio B, a economia não é mais de 90-95% da conta — fica em torno de 70-85%. O payback aumenta em 6-12 meses comparado a instalações anteriores a 2023. Ainda assim, compensa amplamente.
Aprovação em assembleia
Para instalar nas áreas comuns, é necessário aprovação em assembleia. Como é benfeitoria útil (não necessária nem voluptuária), exige maioria simples dos presentes.
Dica: Apresente o projeto com números claros — investimento, economia mensal, payback, impacto na taxa. Quando o morador vê que vai pagar menos, a aprovação costuma ser tranquila.
Passo a passo para implementar
1. Levantamento técnico
Contrate uma empresa de energia solar para avaliar:
- Área disponível na cobertura (orientação, inclinação, sombreamento)
- Capacidade estrutural do telhado/laje
- Consumo histórico de energia (últimos 12 meses)
- Ponto de conexão com a rede
Muitas empresas fazem o levantamento gratuitamente como parte da proposta comercial.
2. Cotação
Cote com pelo menos 3 empresas. Compare:
- Marca dos painéis e inversores (tier 1 é o mínimo)
- Garantia (painéis: 25 anos de performance; inversor: 5-10 anos)
- Prazo de instalação e homologação
- Monitoramento remoto incluso
- Manutenção preventiva inclusa ou à parte
3. Assembleia
Apresente as cotações, o cálculo de retorno e o modelo de financiamento escolhido. Registre tudo em ata.
4. Contratação e instalação
Prazo típico: 2 a 4 semanas de instalação + 30 a 90 dias de homologação junto à distribuidora (CPFL, Enel, Cemig, etc.).
5. Homologação
A distribuidora faz vistoria e troca o medidor por um bidirecional (mede energia que entra e que sai). Após a homologação, o sistema começa a gerar créditos.
6. Monitoramento
Sistemas modernos têm monitoramento via app em tempo real. O síndico acompanha geração, consumo e economia. Alertas automáticos se algum painel apresentar queda de performance.
Manutenção
Energia solar exige pouca manutenção:
Limpeza dos painéis: A cada 6-12 meses (ou quando a geração cair mais de 5%). Custo: R$ 300 a R$ 1.000 por limpeza (pode ser feita pela equipe de manutenção do condomínio com treinamento).
Inspeção elétrica: Anual. Verificar conexões, cabos e inversor. Custo: R$ 500 a R$ 1.500.
Troca de inversor: A cada 10-15 anos. Custo: R$ 15.000 a R$ 50.000 (dependendo da potência).
Total de manutenção anual: 1-2% do investimento inicial.
Financiamento
Opções
Caixa à vista: Usando fundo de reserva ou rateio extra aprovado em assembleia. Menor custo total.
Financiamento bancário: Linhas específicas para energia solar (BNDES, bancos comerciais). Taxas entre 0,8% e 1,5% ao mês. Prazo: 24 a 72 meses. A parcela do financiamento costuma ser menor que a economia na conta de luz — ou seja, o condomínio já economiza desde o primeiro mês.
Leasing solar: A empresa instala e mantém. O condomínio paga aluguel pelo sistema. Sem investimento inicial, mas economia menor.
Erros comuns
Dimensionar acima do consumo — O sistema não deve gerar muito mais do que o condomínio consome. Créditos excedentes não viram dinheiro — só abatem faturas futuras. E com a cobrança do fio B, excesso de geração tem retorno decrescente.
Ignorar a estrutura do telhado — Painéis pesam 12-15 kg/m². Em lajes antigas, é necessário laudo estrutural antes da instalação.
Escolher pelo menor preço — Painéis de marcas desconhecidas podem ter degradação acelerada e garantia que ninguém honra. Prefira fabricantes tier 1 (JA Solar, Canadian Solar, Trina, Jinko, LONGi).
Não considerar o fio B — Projetos que prometem “economia de 95%” estão usando regras antigas. Com o fio B, a economia real fica em 70-85%. Ainda é excelente, mas as expectativas devem ser realistas.
Como o Residente ajuda na gestão de energia solar
Acompanhar a economia gerada, comunicar moradores sobre os resultados, documentar assembleias de aprovação e gerenciar o financiamento do sistema solar — tudo isso fica mais simples com o Residente. Com dados centralizados, o síndico demonstra com transparência o retorno do investimento e mantém todos informados sobre a performance do sistema.