Quando a pandemia forçou o home office em 2020, a maioria dos condomínios não tinha estrutura para isso. Cinco anos depois, o trabalho remoto se consolidou — 38% dos profissionais brasileiros trabalham em modelo híbrido ou totalmente remoto, segundo pesquisa da FGV de 2025. E o problema mudou: não é mais “onde trabalhar”, mas “como trabalhar sem enlouquecer no apartamento de 45 m² com criança, cachorro e vizinho fazendo obra”.
Um condomínio em Curitiba transformou o salão de jogos subutilizado em espaço de coworking. Investimento de R$ 32 mil. Seis meses depois, a pesquisa de satisfação mostrou que 71% dos moradores consideraram a mudança positiva — inclusive quem não usava o espaço. O motivo: menos reclamação de barulho durante o dia, porque quem precisava de silêncio para reunião tinha onde ir.
Por que faz sentido
O coworking condominial resolve três problemas ao mesmo tempo:
- Para o morador — espaço silencioso, com internet de qualidade, sem distrações domésticas
- Para o condomínio — dá utilidade a áreas comuns subutilizadas e agrega valor ao empreendimento
- Para o mercado imobiliário — condomínios com espaço de coworking têm diferencial competitivo na venda e locação
O custo de implantação é relativamente baixo comparado com outros investimentos em áreas comuns (piscina, academia, salão de festas). E a demanda é real.
O que precisa para funcionar
Infraestrutura mínima
Espaço:
- Mínimo de 20 m² para um espaço funcional (4-6 posições de trabalho)
- Ideal: 40-60 m² (8-12 posições + 1 sala de reunião fechada)
- Isolamento acústico básico — forro acústico, porta com vedação, piso vinílico ou carpete
Mobiliário:
- Mesas de trabalho com tomadas embutidas (110V e USB) — R$ 800 a R$ 2.000 por posição
- Cadeiras ergonômicas — R$ 400 a R$ 1.200 cada (não economize aqui; cadeira ruim espanta usuário)
- Sala de reunião com mesa para 4-6 pessoas, TV ou monitor para videoconferência
- Armários individuais com chave (para quem quer deixar notebook/material)
Tecnologia:
- Internet dedicada — link exclusivo de pelo menos 100 Mbps. Compartilhar com a portaria ou câmeras é receita para problema
- Wi-Fi com rede separada (SSID próprio, isolamento de rede)
- Pelo menos 2 pontos de rede cabeada para quem precisa de conexão estável
- Impressora multifuncional (opcional, mas agrega valor)
Conforto:
- Ar-condicionado — indispensável
- Iluminação adequada — mínimo 500 lux na área de trabalho
- Frigobar ou ponto de café — pequeno diferencial que aumenta o uso
- Banheiro próximo (não precisa ser exclusivo)
Custo de implantação
Para um espaço de 40 m² com 8 posições e 1 sala de reunião:
| Item | Custo estimado |
|---|---|
| Mobiliário (mesas, cadeiras, armários) | R$ 12.000 - R$ 25.000 |
| Isolamento acústico | R$ 5.000 - R$ 12.000 |
| Ar-condicionado | R$ 3.000 - R$ 6.000 |
| Link de internet dedicado (instalação) | R$ 500 - R$ 1.500 |
| Rede elétrica e dados | R$ 3.000 - R$ 7.000 |
| TV/monitor para reunião | R$ 2.000 - R$ 4.000 |
| Acabamento (pintura, piso, iluminação) | R$ 4.000 - R$ 10.000 |
| Total | R$ 29.500 - R$ 65.500 |
Custo mensal de operação:
- Internet dedicada: R$ 200 a R$ 500/mês
- Energia (ar-condicionado + equipamentos): R$ 300 a R$ 800/mês
- Limpeza adicional: R$ 200 a R$ 500/mês
- Manutenção geral: R$ 100 a R$ 300/mês
- Total mensal: R$ 800 a R$ 2.100
Dividido entre 100 unidades, o custo de operação adiciona R$ 8 a R$ 21 na taxa condominial. Implantação financiada pelo fundo de reserva ou rateio específico aprovado em assembleia.
Regras que funcionam
Coworking sem regra vira sala de estar. E sala de estar o morador já tem.
Reserva e uso
- Sistema de reserva obrigatório — por app ou plataforma do condomínio. O Residente permite configurar reservas de espaços comuns com horários, limites e confirmação automática
- Turnos de 4 horas (manhã: 8h-12h / tarde: 13h-17h) — evita que um morador monopolize o espaço o dia inteiro
- Limite de reservas por unidade — máximo de 2 a 3 turnos por semana, pelo menos no início, para garantir acesso a todos
- Cancelamento com antecedência — mínimo de 2 horas. No-show recorrente (3 vezes) gera suspensão temporária
Comportamento
- Silêncio — ligações e reuniões apenas na sala fechada. Área aberta é para trabalho individual
- Proibido comer na mesa de trabalho — área de café separada
- Cada um limpa seu espaço ao sair
- Proibido uso por não moradores desacompanhados — visitantes profissionais podem usar, mas acompanhados do morador
- Crianças — definir idade mínima (12 ou 14 anos) ou proibir, dependendo do perfil do condomínio
Sala de reunião
- Reserva separada, em blocos de 1 hora
- Limite de 2 reservas por unidade por semana
- Equipamento de videoconferência disponível (webcam, microfone) — muitos moradores usam para calls com clientes
O que não funciona
Alguns condomínios tentaram modelos que falharam. Aprender com os erros alheios é mais barato:
- Coworking sem internet dedicada — Wi-Fi do condomínio com 50 pessoas conectadas não sustenta uma videochamada. O espaço fica inutilizável para trabalho real
- Espaço aberto sem regra de silêncio — vira extensão do salão de festas em uma semana
- Sem sistema de reserva — quem chega primeiro fica, os demais desistem. Gera conflito e subutilização
- Cadeiras de plástico e mesa de refeitório — ninguém trabalha 4 horas numa cadeira desconfortável. O espaço é abandonado em dois meses
- Localização ruim — subsolo, área sem ventilação natural, próximo à piscina ou playground. O espaço precisa ter ambiente de trabalho, não de lazer
Aprovação em assembleia
A implantação de coworking exige aprovação em assembleia, pois envolve:
- Mudança de destinação de área comum (se estiver transformando outro espaço)
- Investimento com recursos do condomínio
- Novas regras de uso
Quórum necessário:
- Se é conversão de espaço existente (salão de jogos → coworking): maioria simples em assembleia com quórum de instalação
- Se envolve obra estrutural ou mudança de convenção: 2/3 dos condôminos
Dica: apresente o projeto com custos detalhados, pesquisa de interesse dos moradores e comparativo com o valor agregado ao imóvel. Números convencem mais que argumentos.
Medindo o resultado
Depois de implantar, acompanhe:
- Taxa de ocupação — abaixo de 30% indica que algo precisa mudar (regras, divulgação, horários)
- Frequência por unidade — se sempre os mesmos 5 moradores usam, o espaço não está servindo ao condomínio
- Reclamações — barulho, internet lenta, falta de limpeza são os três principais motivos de abandono
- Satisfação — pesquisa semestral rápida (3 perguntas bastam)
Próximos passos
- Faça uma pesquisa de interesse — quantos moradores trabalham remotamente e usariam o espaço
- Identifique a área mais adequada — priorize espaços subutilizados que não gerem conflito com outros usos
- Monte o projeto com orçamento detalhado e apresente em assembleia
- Comece simples — 4-6 posições de trabalho com boa internet e silêncio já resolve 80% da necessidade
- Implemente sistema de reserva desde o primeiro dia
- Avalie e ajuste trimestralmente com base nos dados de uso
Coworking em condomínio não é luxo nem modismo. É adaptação a uma realidade que já se consolidou. O condomínio que oferece isso atrai e retém moradores que valorizam praticidade — e está um passo à frente dos que ainda tratam área comum como sinônimo de churrasqueira e salão de festas.