Um condomínio de 80 apartamentos em Belo Horizonte pagava R$ 18 mil por mês de água. A conta era dividida igualmente entre todas as unidades — R$ 225 por apartamento. Um casal sem filhos que viajava todo fim de semana pagava o mesmo que a família de cinco pessoas com dois adolescentes. Quando instalaram hidrômetros individuais, o consumo total caiu 32% em seis meses. O casal passou a pagar R$ 95. A família, R$ 310. Justo.
Essa é a diferença entre conta pool e rateio individualizado. E a escolha entre um modelo e outro afeta diretamente o bolso dos moradores, a inadimplência e até os conflitos internos do condomínio.
O que é conta pool
No modelo pool, o condomínio recebe uma única conta da concessionária (água, gás ou energia) e divide o valor entre as unidades. A divisão pode ser:
- Igualitária: valor total ÷ número de unidades
- Por fração ideal: proporcional ao tamanho do apartamento
- Por número de moradores: declarado pelo proprietário (raramente usado, difícil de fiscalizar)
É o modelo padrão na maioria dos condomínios brasileiros, especialmente os mais antigos, que foram construídos com apenas um hidrômetro geral.
Vantagens da conta pool
- Simplicidade: uma conta, uma divisão. Sem equipamentos extras.
- Custo zero de implantação: não precisa instalar medidores individuais.
- Previsibilidade: o morador sabe aproximadamente quanto vai pagar todo mês.
Desvantagens da conta pool
- Injustiça: quem consome menos subsidia quem consome mais.
- Sem incentivo à economia: reduzir o próprio consumo não impacta a conta individual.
- Conflitos: moradores que viajam, apartamentos vazios, unidades com vazamentos — tudo gera discussão.
- Consumo mais alto: sem responsabilidade individual, o consumo coletivo tende a ser 25-40% maior.
O que é rateio individualizado
Cada unidade tem seu próprio medidor (hidrômetro para água, medidor para gás). O morador paga exatamente o que consome, mais uma parcela proporcional do consumo das áreas comuns (irrigação de jardins, limpeza, piscina).
Vantagens do rateio individualizado
- Justiça: cada um paga o que usa.
- Economia comprovada: a individualização reduz o consumo total em 20-40%, segundo dados da Sabesp e Copasa.
- Menos conflitos: não tem mais “o vizinho gasta demais e eu pago por ele”.
- Valorização do imóvel: condomínios com medição individual são mais atrativos para compradores e inquilinos.
Desvantagens do rateio individualizado
- Custo de implantação: instalação de hidrômetros individuais custa entre R$ 800 e R$ 2.500 por unidade, dependendo da infraestrutura hidráulica.
- Manutenção: medidores precisam de calibração periódica (a cada 5 anos, em média).
- Leitura mensal: alguém precisa fazer a leitura — manual ou com sistema remoto (telemetria).
- Rateio do comum: ainda é necessário calcular e dividir o consumo das áreas comuns.
Legislação
A legislação varia por estado e município:
- São Paulo (Lei 13.312/2016): desde 2021, empreendimentos novos são obrigados a ter medição individualizada de água.
- Minas Gerais: lei estadual 17.506/2008 obriga individualização em novos empreendimentos.
- Rio de Janeiro: lei estadual 8.418/2019 com exigência similar.
- Condomínios antigos: na maioria dos estados, a individualização é facultativa e depende de aprovação em assembleia (quórum de maioria simples na maioria das convenções).
Mesmo onde não é obrigatória, a tendência legislativa é clara: individualização será o padrão.
Como migrar de pool para individualizado
1. Estudo de viabilidade técnica
Contrate uma empresa especializada para avaliar a infraestrutura hidráulica. Prédios com coluna única (alimentação vertical) são mais complexos e caros. Prédios com alimentação horizontal (cada apartamento tem entrada própria) são mais simples.
Custo do estudo: R$ 1.500 a R$ 5.000, dependendo do porte do condomínio.
2. Aprovação em assembleia
Apresente o estudo com:
- Custo total de implantação
- Economia projetada (com base no consumo atual)
- Prazo de retorno do investimento (geralmente 18-36 meses)
- Forma de pagamento (caixa do condomínio, rateio extra, ou parcelamento)
Quórum necessário: verifique a convenção. Geralmente maioria simples dos presentes para obras úteis.
3. Execução da obra
- Instalação dos hidrômetros individuais
- Adequação hidráulica (se necessário)
- Instalação de hidrômetro para áreas comuns
- Prazo médio: 30-90 dias para condomínios de até 200 unidades
4. Sistema de leitura e cobrança
Opções:
- Leitura manual: zelador faz a leitura mensal. Funciona para condomínios pequenos.
- Telemetria: medidores com transmissão remota. Custo maior, mas elimina erro humano e permite monitoramento em tempo real.
- Software de gestão: sistemas como o Residente integram leitura de consumo individual ao boleto do condomínio.
5. Período de adaptação
Nos primeiros 3 meses, faça leitura individualizada em paralelo com o modelo pool. Compare os valores. Isso dá segurança aos moradores e permite identificar vazamentos ou medidores descalibrados antes de oficializar a mudança.
Conta pool: quando ainda faz sentido
Nem todo condomínio precisa migrar imediatamente:
- Prédios pequenos (até 20 unidades): o custo de implantação pode não compensar a economia.
- Consumo homogêneo: se todas as unidades têm perfil similar (mesmo tamanho, número de moradores parecido), a injustiça é menor.
- Condomínios de casas com medidores da concessionária: cada casa já tem seu próprio hidrômetro da concessionária. O “pool” só existe para áreas comuns.
O caso do gás
A lógica é idêntica. Condomínios com gás central (GLP ou GN) podem:
- Manter conta pool (mais simples)
- Instalar medidores individuais de gás (mais justo)
A economia com individualização de gás é menor que a de água (15-25%), mas o princípio de justiça é o mesmo.
Conclusão
Conta pool é mais simples. Rateio individualizado é mais justo. Para a maioria dos condomínios com mais de 30 unidades, a individualização se paga em menos de 3 anos e reduz conflitos permanentemente. Se o condomínio ainda não migrou, o melhor momento para começar o estudo de viabilidade é agora.